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A ministra da Igualdade Racial do Brasil não tinha planos de entrar na política, mas sua irmã foi assassinada e isso mudou sua trajetória.

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A ministra da Igualdade Racial do Brasil não tinha planos de entrar na política, mas sua irmã foi assassinada e isso mudou sua trajetória.

Anielle Franco, Ministra da Igualdade Racial do Brasil, nunca planejou ser política. Isso era coisa da irmã dela. Cinco anos mais velha que Anielle, Marielle era apaixonada, decidida e uma ativista nata. Em sua campanha pelas comunidades negra e LGBTQ do Rio de Janeiro, ela “agiria primeiro e se preocuparia depois”, lembra Anielle. “Eu era mais tímido. Por ter minha irmã lá como líder, fiquei à margem.”
Anielle Franco
Anielle Franco e eleita uma das mulheres do ano pela revista Time

Isso mudou em março de 2018

Um ano depois de assumir o cargo de vereadora do Rio, Marielle foi assassinada – em retaliação, acreditam seus colegas, por seu ativismo contra a violência policial, o racismo e a corrupção. A busca por justiça levou Anielle, então com 33 anos, aos holofotes nacionais. Jogadora de vôlei competitiva e professora de inglês, ela se dedicou ao ativismo em tempo integral, lançando uma organização sem fins lucrativos em nome de sua irmã, em um momento em que o presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, eleito no final de 2018, estava martelando a agenda dos direitos humanos no brasil. Sua trágica história familiar, personalidade calorosa e uso hábil das mídias sociais transformaram Anielle em uma líder no movimento pelos direitos dos negros no Brasil.

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Mandantes da execução de Marielle Franco seguem impunes um ano depois

Agora com 38 anos – a mesma idade que Marielle tinha quando morreu

Anielle se encontra em uma posição muito mais proeminente do que sua irmã poderia imaginar, com uma chance real de realizar seu sonho de um Brasil mais justo. Anielle assumiu o cargo em janeiro como Ministra da Igualdade Racial depois que Lula derrotou Bolsonaro nas eleições de outubro. O trabalho de Anielle é garantir que os ministros e legisladores de Lula cumpram sua promessa de igualdade para os negros e mestiços brasileiros, que representam 56% da população, e as minorias indígenas e asiáticas do país.

Os assassinatos cometidos pela polícia atingiram níveis recordes durante a presidência de Bolsonaro enquanto ele defendia táticas de atirar para matar; 84% das vítimas em 2021 eram negras

Em 2022, o aprofundamento da crise econômica pós-pandêmica desencadeou um salto de 60% no número de brasileiros negros passando fome – quase o dobro do aumento entre os brasileiros brancos. Bolsonaro também destruiu orçamentos de programas e agências destinados a ajudar comunidades marginalizadas. “Esse era um projeto político que ele estava perseguindo – deixar de lado tudo o que era para os negros, para os indígenas, para as mulheres, para os pobres, para as pessoas LGBTQI”, diz Franco. “Estou feliz por termos interrompido ele.”

Para desfazer quatro anos de retrocesso na igualdade e, finalmente, avançar com novas políticas, Anielle precisará do apoio de outros ministros e legisladores, muitos dos quais provavelmente não priorizarão a justiça racial. Ela também precisará obter o apoio de um Congresso dominado pelos conservadores e de um público profundamente polarizado.

“A inauguração planejada de Franco para 9 de janeiro foi adiada por dois dias depois que os apoiadores de Bolsonaro invadiram o Congresso, a Suprema Corte e o palácio presidencial do Brasil em 8 de janeiro na esperança de derrubar o governo de Lula.”

Anielle diz que ela aguenta. Ela continua sendo uma pessoa cautelosa – mas não alguém que pode ser reprimida, diz ela.

Perdi o medo quando mataram minha irmã. Agora eu luto por algo muito maior do que eu

Antes de abraçar a política, a força mais poderosa na vida da irmã mais nova de Anielle era o vôlei. Ela tinha 8 anos, crescia na favela carioca da Maré, quando começou a praticar o esporte. Aos 16 anos, ela recebeu uma bolsa para jogar vôlei por dois anos no Navarro College em Corsicana, Texas. Ela acabou ficando nos Estados Unidos por 12 anos (suas equipes “continuavam ganhando campeonatos”). Isso deu a ela a chance de estudar inglês e jornalismo em duas faculdades historicamente negras – uma experiência que ela diz ter ajudado a moldar sua identidade. “Eu não imaginava o quão incrível seria”, diz ela, sorrindo, “em termos de cultura, representação e minha compreensão da agenda antirracismo”.

Anielle Franco
Anielle Franco e eleita uma das mulheres do ano pela revista Time

O assassinato de Marielle – seis anos depois que Franco voltou ao Brasil para sempre – foi um evento de abalar a terra para os defensores do anti-racismo no Brasil

Muitas mulheres negras já haviam deixado claro que o Brasil é “um país racista, sexista e desigual”, diz Bianca Santana, ativista paulista. Mas os avanços feitos por governos de esquerda no início dos anos 2000 deixaram a impressão de que o país estava tropeçando em direção à igualdade. “O assassinato de Marielle nos disse algo diferente: não importa o que você faça, não há lugar para você aqui. Até um eleito pode ser assassinado”, diz Santana. “Foi um chamado às armas.”

Milhares protestaram em cidades de todo o Brasil nas semanas após o assassinato, exigindo justiça e o fim da violência generalizada contra negros, mulheres e a comunidade LGBTQI. Anielle Franco teve papel central nesses protestos, ao lado da viúva de Marielle, Mônica Benício. (Dois ex-policiais estão presos aguardando julgamento pelo tiroteio, mas as investigações continuam sobre quem ordenou o ataque.)

Para canalizar a atenção internacional sobre o caso de Marielle para uma mudança duradoura, Anielle fundou o Instituto Marielle Franco em julho de 2018.

A organização sem fins lucrativos produziu relatórios sobre incidentes de racismo, sexismo e violência política encontrados por dezenas de mulheres negras políticas. A pesquisa, ainda amplamente referenciada na mídia brasileira, ajudou a quebrar um verniz de harmonia racial que alguns ainda insistem que existe na política.

Anielle tem muito orgulho, diz ela, do trabalho do instituto para eleger mais mulheres negras – incluindo pressionar com sucesso o tribunal eleitoral para exigir que os partidos deem aos candidatos negros uma proporção justa dos fundos de campanha e tempo de antena na televisão. Um número recorde de mulheres negras concorreu a cargos locais, estaduais ou nacionais em 2022, e 29 foram eleitas para a Câmara dos Deputados do Brasil – contra apenas 13 em 2018. (Isso ainda é menos de 6% das cadeiras, em um país onde negros as mulheres constituem 28% da população.)

Agora, com o apoio do governo federal, Anielle pretende combater uma série de desigualdades que, segundo ela, somam “o genocídio da população negra”. Uma prioridade é combater o policiamento racista

Anielle já se reuniu com o ministro da Justiça do Brasil e se ofereceu para ajudar a elaborar políticas eficazes, e ela quer coordenar as discussões com a sociedade civil, a polícia e os moradores das favelas. “Queremos produzir uma estratégia de trabalho com ações concretas. Não podemos ficar aqui especulando enquanto as pessoas estão morrendo.”

Em algumas questões, Anielle precisará do apoio dos partidários de Bolsonaro, que acusaram falsamente o governo de Lula de roubar a eleição de 2022. “O primeiro passo é entender quem está disposto a falar”, diz ela. “Se conseguirmos chegar a algumas pessoas, isso fará uma grande diferença.” E ela pode ter mais sucesso do que a maioria, argumenta Bianca Santana, a ativista. “Anielle tem um jeito muito próprio, mas muito caloroso, de falar e fazer política. Ela acredita na humanidade”, diz ela. “Isso faz com que as pessoas queiram ouvi-la.”

Com quatro anos restantes no cargo, Franco tem espaço para sonhar alto. “Espero que os negros assumam o lugar de protagonistas em nossa sociedade, e não apenas na primeira página dos jornais como vítimas de um genocídio.” Só então, diz ela, o Brasil pode se tornar “o lugar mais feliz” que o resto do mundo pensava que era antes do assassinato de Marielle e da presidência de Bolsonaro. “O país do samba, do futebol, de tanta coisa boa.”

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