Hora Brasileira

Cristãos fundamentalistas representavam uma fração significativa dos manifestantes do Capitólio no Brasil

Publicidade

Cristãos fundamentalistas representavam uma fração significativa dos manifestantes do Capitólio no Brasil

Um segmento minoritário que podem influenciar grupos mais amplos e, às vezes, promover a violência

A fracassada tentativa de golpe de 8 de janeiro por milhares de apoiadores do ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, não apenas deixou um rastro de destruição, mas também demonstrou que um segmento muito bem organizado dos cidadãos do país está disposto a ver uma ditadura militar assumir. o poder.

Após o motim, que foi comparado à invasão do Capitólio dos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021, autoridades detiveram cerca de 1.800 pessoas que invadiram prédios do governo.

Entre os presos estavam pelo menos quatro pastores evangélicos, segundo a Agência Pública, uma agência brasileira de notícias investigativas, que analisou os registros trabalhistas do governo de 1.398 manifestantes detidos. Os pastores foram representativos da presença significativa de evangélicos e católicos no meio da turba.

Um apoiador do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, usa um colar de crucifixo sobre uma camisa com a imagem de Bolsonaro antes da posse de Bolsonaro, em Brasília
Um apoiador do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, usa um colar de crucifixo sobre uma camisa com a imagem de Bolsonaro antes da posse de Bolsonaro, em Brasília

Ficou claro que centenas de organizações cristãs – especialmente igrejas neopentecostais, mas também grupos católicos – estiveram envolvidas ou tiveram membros participando da tentativa de golpe.

Numerosos vídeos postados nas mídias sociais mostraram manifestantes orando, gritando slogans cristãos e cantando hinos gospel enquanto invadiam os prédios da capital. Em um dos clipes que viralizou nas redes sociais brasileiras, um grupo é visto na sala do Senado e um homem grita sem parar: “O Brasil é do Senhor Jesus! O Senado é a nossa igreja! O Senado é a igreja do povo de Deus!”

“São pessoas que se acham heróis, então registraram suas ações e mostraram seus rostos. Eles tinham uma clara retórica religiosa. Podemos vê-los citando a Bíblia em diferentes vídeos”, explicou Vinicius do Valle, cientista político que dirige o Observatório Evangélico, uma organização não governamental que estuda as igrejas cristãs no Brasil.

Do Valle argumenta que Bolsonaro criou uma persona política com a religião como elemento central.

“É uma espécie de religiosidade ligada a aspectos conservadores do cristianismo. Por isso conseguiu estabelecer uma aliança profunda com evangélicos e católicos conservadores e na maioria fundamentalistas”, acrescentou.

Essa aliança veio para ficar, segundo Priscilla dos Reis Ribeiro, teóloga e ativista de direitos humanos no Rio de Janeiro.

“Grupos de mídia social vem disseminando desinformações para apoiar o governo fascista de Bolsonaro há quatro anos. A mentalidade criada nesse processo não desaparecerá repentinamente”, disse ela, observando que muitos conservadores acreditam que o Partido dos Trabalhadores de Lula é uma força comunista empenhada em destruir igrejas cristãs.

Esses temores tornaram-se tão profundamente enraizados, de acordo com Ribeiro, que alguns acreditam que sua única esperança é um regime militar – que a democracia não é mais forte o suficiente para protegê-los ou a suas igrejas.

“Esses grupos assumiram um caráter fundamentalista e acreditam na violência política”, alertou Ribeiro.

Uma pesquisa realizada pela Atlas/Intel nos dias 8 e 9 de janeiro mostrou que 64% dos evangélicos apoiam um golpe militar no Brasil. Quase um terço (31%) apoia a invasão de capital, em comparação com 18% dos brasileiros em geral. Apenas 28% dos evangélicos acreditam que a eleição de Lula foi legítima.

Eles afirmam que Lula – que estava preso por acusações de corrupção e foi libertado e reabilitado politicamente depois que o Supremo Tribunal anulou suas condenações – só venceu como resultado de fraude eleitoral destinada a remover Bolsonaro do poder.

Tais conspirações ecoam os próprios ataques preventivos de Bolsonaro às urnas brasileiras e suas contínuas ameaças de não reconhecer uma vitória de Lula.

Depois, há quem acredite que os distúrbios de 8 de janeiro foram perpetrados por militantes do Partido dos Trabalhadores disfarçados de apoiadores de Bolsonaro, segundo Francisco Borba Ribeiro Neto, diretor do Centro de Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

“O bolsonarismo impulsionou uma tendência esquizofrênica”, disse Ribeiro Neto. “Eles também estão convencidos de que a esquerda forçará os jovens a se tornarem homossexuais e fechará as igrejas”.

Esse é um segmento minoritário, acrescentou Ribeiro Neto. No entanto, pode influenciar grupos mais amplos e, às vezes, promover a violência.

O pastor evangélico Toninho Graciano, líder cristão da cidade de Votuporanga, no estado de São Paulo, disse à HB que um grupo de 30 ou 40 pessoas de igrejas da cidade foi a Brasília no domingo. Ele também queria ir, mas não podia se juntar a eles porque tinha que trabalhar.

“Sou contra esse tipo de ação. Isso foi um excesso, algo que saiu do controle. Os vídeos vão mostrar cada vez mais que ali havia pessoas infiltradas, pessoas que já tinham a intenção de perpetrar aqueles atos. Esse tipo de coisa pode prejudicar a reputação do conservadorismo”, disse à HB.

Graciano reconheceu que muitos dos manifestantes “Com certeza acreditam de que houve fraude eleitoral”.

“Uma coisa podemos dizer com certeza: o presidente não poderia ter sido eleito, visto que tem antecedentes criminais”, acrescentou.

Graciano faz parte do grupo que acha que os “estabelecimentos” agiram em nome de Lula.

“Respeito as ideias de todos, mas acredito que houve um esquema para libertar Lula e fazê-lo ganhar a eleição. Essa foi a única forma de vencer Bolsonaro”, disse.

Graciano também acha que as igrejas são fortes o suficiente agora para evitar a perseguição em qualquer regime, mas ele teme que a esquerda possa apresentar uma legislação para restringir os direitos dos cristãos.

“Esperamos que os congressistas evangélicos que elegemos defendam nossos direitos e se mantenham fiéis à sã doutrina”, afirmou.

Mais de 100 membros da Câmara dos Deputados — 20% do total da Câmara dos Deputados — fazem parte da poderosa bancada evangélica, que deve se opor fortemente ao governo Lula.

Um de seus membros é o deputado Marco Feliciano, um famoso pastor evangélico e político no Brasil e um forte aliado de Bolsonaro.

“Nós, cristãos observantes que estivemos ao lado do presidente Bolsonaro, não fomos motivados por fatores políticos, mas ideológicos, como os costumes judaico-cristãos, o respeito à propriedade e, mais importante, a proteção à família tradicional e à vida desde a concepção”, disse ele à RNS, acrescentando que tais valores “não são negociáveis”.

Feliciano rejeita qualquer ideia de que a bancada evangélica do Congresso cooperaria com o governo Lula.

“Os próximos de Lula são cristãos fabricados na União Soviética que negam os valores tradicionais. Querem um regime totalitário em tons suaves e um ‘deus’ moldável aos seus interesses”, disse Feliciano.

O pastor Romi Bencke, que preside o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (https://www.conic.org.br/portal/), acredita que o Brasil está em um momento perigoso e espera que as instituições religiosas entendam a gravidade da situação e se unam para tomar medidas contra a violência.

“É necessária uma atitude forte para reafirmar os princípios cristãos e chamar os ministros que acompanham esses grupos extremistas. Caso contrário, eles manterão sua legitimidade”, disse Bencke.

Para Priscilla Ribeiro, isso vai exigir uma espécie de reeducação.

“A extrema direita empregou uma retórica de moralidade para persuadir essas pessoas. Temos que enfatizar o cuidado social e a solidariedade em nosso diálogo com eles”, concluiu.

Leia também

Publicidade

Compartilhe

Publicidade

Bem Vindo ao HoraBrasileira

Nosso blog se destaca pela ampla variedade de conteúdos, incluindo política, economia, cultura, entre outros, com contribuições de colaboradores globais. Oferecemos nosso conteúdo em vários idiomas, essencial tanto para brasileiros no exterior quanto para estrangeiros.

Nossa missão é fornecer informações precisas, confiáveis e imparciais, com uma abordagem equilibrada, apesar de nossa orientação política progressista.

Comprometidos em manter a comunidade brasileira no exterior bem informada, garantimos acesso a notícias atualizadas e equilibradas sobre o Brasil e o mundo em diversas plataformas e idiomas.

Se você tem paixão por escrever e algo a dizer, queremos ouvir!

Pular para o conteúdo