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Nome aos bois: São eles realmente conservadores?

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Nome aos bois: São eles realmente conservadores?

Discute a luz da politica brasileira o rótulo de "conservadores" empregado pela extrema-direita como identificador de seus ideais e elucida a realidade reacionária de tais movimentos.

Nome aos bois: Os ditos conservadores são realmente conservadores?

“O conservadorismo, no entanto, é muitas vezes uma desculpa bem-vinda para mentes preguiçosas, relutantes em se adaptarem a condições em rápida mudança.” – Sigmund Freud

Uma crença amplamente defendida nos círculos “progressistas”, especialmente após a redemocratização do Brasil e a promulgação da Constituição de 1988, é a de que o debate público deve ser guiado pela razão, entendida aqui como um conjunto de argumentos fundamentados em fatos verificáveis. Embora os fatos possam ser interpretados de diferentes maneiras, existe um limite além do qual a falsificação e a distorção da realidade se tornam evidentes. No entanto, a ascensão e consolidação de setores de extrema-direita, que baseiam seus argumentos em falsificações da realidade, da história e da ciência, revelam que o problema é mais profundo. O crescimento desses grupos evidenciou um debate público dominado pelo apelo aos medos e à evocação dos afetos e sentimentos mais primários. Nesse contexto, a mobilização das emoções tornou-se uma ferramenta poderosa no palco político, é a articulação de luzes que destaca ou ofusca atores e ideias que disputam a arena do debate público. Tornou-se claro que não basta ter melhores argumentos se não houver a capacidade de tocar, mover e sensibilizar os interlocutores do debate.

No que diz respeito à mobilização emocional, a extrema-direita tem sido excepcionalmente eficaz em recrutar e manter seguidores para seus discursos. No Brasil, em particular, nem mesmo a apresentação de dados, evidências ou a exposição das contradições de seus discursos e práticas parece abalar a lealdade dos adeptos do bolsonarismo. Um exemplo marcante dessa habilidade é a retórica que apela à preservação ou conservação da família, expressa no lema “Deus, Pátria e Família”. Em uma sociedade capitalista liberal, onde outras formas coletivas de amparo e cuidado ao sujeito estão em declínio, a família representa um ponto de ancoragem crucial para o sentimento de segurança subjetiva. Portanto, em uma sociedade cada vez mais individualista, onde impera o lema “cada um por si e Deus por todos”, para muitos restam poucos refúgios além de Deus e da família. Não é coincidência que as igrejas neopentecostais tenham crescido e continuem a crescer nas periferias, oferecendo um senso de acolhimento e reconhecimento de suas subjetividades a pessoas marginalizadas e desamparadas pelo Estado, em troca de sua adesão política. Essa estratégia explora o sentimento de medo da perda de identidade e pertencimento, o desamparo produzido pelo capitalismo liberal, convencendo muitos a aderir a uma linha política autointitulada “conservadora” e simpatizar com ideias autoritárias. Conservar, nesse contexto destes discursos, significa proteger o indivíduo da incerteza e escassez decorrentes do capitalismo liberal, ao mesmo tempo em que mantém os privilégios das elites sociais. O autoritarismo é o caminho para enfrentar inimigos sociais, portanto é um dos modos de fornecer segurança. Ao mesmo tempo, ser conservador também implica em permitir que certos setores continuem a se beneficiar do trabalho precarizado e do acesso restrito a serviços básicos como saúde e educação. Há, com efeito, uma elite que quer pra si um Estado cão de guarda de seus interesses, que direcione o aparato de violência estatal para os mais pobres e para todos que ameacem seus privilégios. Assim, quer se trate do trabalhador precarizado que vê na igreja sua comunidade de pertencimento, quer se trate da elite econômica empenhada em se manter em tal condição,  dentro desses grupos sociais, o conservadorismo é celebrado como uma ideia nobre e louvável.

No entanto, o falseamento do discurso da extrema-direita não se limita à distorção da história ou da ciência, mas também se estende à própria identidade política desses grupos, que se definem como conservadores. Há vários exemplos recentes disso. Este grupos se apropriaram de símbolos nacionais, como se existisse alguma forma de nacionalismo em suas ações, mas a realidade é que defendem e praticam o total servilismo do Brasil aos EUA. Outra bandeira que lhes é cara, é do  moralismo político, mas Bolsonaro sempre integrou os setores e partidos mais fisiológicos do Congresso nacional, era filiado ao Partido Progressista, partido  do famigerado “centrão” que, teve o maior número de presos e indiciados na falecida operação lava-jato. Isto inclui a aliança com vários políticos condenados e notoriamente envolvidos em maracutaias, milicias etc., mas ainda assim esse setor da direta, conseguiu colar em si a pecha do discurso vazio “anticorrupção”. Nosso ex-mandatário da república teve vários casamentos, um filho com cada mulher, um que ele pretendeu abortar e só reconheceu por conta de um exame de DNA, sua esposa, tem uma filha de um relacionamento anterior com um homem casado, mas ainda assim conseguiram produzir a imagem de “família tradicional” (seja lá o que isso for!). Assim, à margem da realidade foi desenhada uma figura politicamente palatável que conseguiu ascender ao poder.

O surgimento de líderes como Bolsonaro é resultado de um oportunismo político habilmente construído ao longo do tempo, explorando um nicho de discurso que lhes garantiu visibilidade e poder político. Suas aparições “polêmicas” em programas de auditórios nos anos 2000 lhe concederam uma notoriedade fora do usual para deputados que, como ele, compunham o baixo-clero  e  tinham com atuação pífia como congressistas. A construção da imagem de líder conservador foi gradual e eficiente o suficiente para colocar no poder alguém com sérias limitações intelectuais e morais na chefia do executivo federal.

Nesse contexto, de construção de uma identidade política, é importante considerarmos a centralidade discursiva ocupada pela denominação de “conservador”.  Segundo Norberto Bobbio[1], que foi um dos mais importantes pensadores políticos do século XX, conservadorismo é o conjunto de “ideias e atitudes que visam à manutenção do sistema político existente e dos seus modos de funcionamento, apresentando-se como contraparte das forças inovadoras. Neste caso, porém, toda atenção se concentra na função do  conservadorismo, de tal modo que seu conteúdo se coloca e se limita dentro dos termos dessa mesma função.”

Ocorre que chamar a extrema-direita brasileira de “conservadores” é um eufemismo enganoso de sua verdadeira natureza. Eles não defendem a preservação do status quo ou a manutenção das instituições existentes, mas sim a subversão de consensos políticos estabelecidos desde a Constituição de 1988. A grande agenda política da extrema-direita não é a de manutenção de direitos ou a preservação do sistema político e suas instituições. Diversamente disso, a Constituição de 1988, as instituições que dela derivam, são vistas como parte de um “sistema” que é inimigo do “cidadão de bem” e, portanto, deve ser derrubado.

Ainda que o Brasil nunca tenha vivenciado um governo realmente de esquerda – que pressupõe não só a chefia do executivo, mas a maioria no parlamento – mas somente governos de coalização, esses grupos vislumbram nas instituições e na correlação de forças políticas estabelecidas a natimorta ameaça comunista, a mesma que foi usada para justificar o golpe militar de 64.  Por conseguinte, longe do conservadorismo, o que essa extrema-direita pretende é a subversão  de consensos políticos que fundaram a nova república brasileira. Com todos os seus dilemas e contradições a Constituição Brasileira assentou compromissos com a redução de desigualdades e com um funcionamento minimamente democrático das instituições.  Diversamente disso, a bandeira política da extrema-direita é a de destruição das instituições tal como postas e de retorno a um momento anterior ao estabelecimento da democracia. O nome disso não é conservadorismo, é reacionarismo, é o combate à direitos e instituições que se consolidaram após a redemocratização brasileira para o retorno a um momento autoritário e profundamente desigual. Estamos, portanto, falando de grupos que se insurgem contra conquistas civilizatórias até pouco tempo consensuais tais como:  a promoção de direitos humanos, o combate ao racismo, as políticas de igualdade de gênero, a diversidade religiosa e o Estado laico, direitos da população LGBT, direitos do trabalhador. Como arma de combate estes grupos zombam do debate público sobre esses temas, num processo de memetização da política.

Chamar esses grupos políticos de “conservadores” é esconder sua natureza de destruição de direitos e instituições, é dar-lhes o benefício do eufemismo que amplia a aceitação social de seus discursos. Portanto, diante da falsificação dos fatos e da desonestidade intelectual, é necessário, sobretudo, dar nome aos bois, não estamos diante de conservadores na política, mas sim de reacionários. Combater a mistificação da realidade pela extrema-direita demanda, sobretudo, combater as máscaras que falseiam sua identidade.

[1] BOBBIO, Norberto. Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino; trad. Carmen C, Varriale et ai.; coord. trad. João Ferreira; rev. geral João Ferreira e Luis Guerreiro Pinto Cacais. – Brasília : Editora Universidade de Brasília, 11ª ed., 1998.

 

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